quinta-feira, 14 de junho de 2007

«O Velho que Esperava por D. Sebastião»

(Contos, Editora Pergaminho, 1999)

Início do conto que dá o título ao livro
Um velho que contava histórias de encantamentos e avisava as pessoas do regresso de D. Sebastião numa manhã de nevoeiro tinha-me ensinado a fórmula para sonhar com a mulher que haveria de casar comigo. Dois ou três anos antes. Bastava contar nove estrelas durante nove noites seguidas e dormir, à espera do primeiro sonho. O velho, sempre que o tempo estava de feição, ia logo bem cedo para um miradouro de onde se conseguia avistar o mar nos dias de Sol, lá longe, a mais de vinte quilómetros. D. Sebastião haveria de surgir de repente do manto cinzento de nevoeiro, talvez montado num cavalo, ou numa serpente gigante, ou então numa máquina desconhecida. E eu ia muitas vezes junto, não tanto para ver se assistia à chegada do rei, que para mim tinha sido um sujeito um bocado para o parvo, mas na ânsia de ouvir as coisas dos encantamentos. Foi numa dessas esperas de loucura que o velho me contou acerca do poder das estrelas.
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Textos de opinião sobre o livro

Manuel Dias, Diário de Notícias Jovem (edição Internet), 08.06.99
Quarto livro de António Manuel Venda
«O Velho que Esperava por D. Sebastião» é quarto livro de António Manuel Venda. Acaba de ser lançado com a chancela da Pergaminho. Reúne dezasseis histórias, organizadas em quatro grupos de quatro: «Os Nossos Sonhos de Criança», «As Armas e os Barões», «Porque Haveriam de Ficar Tristes?» e «Aventuras e Desventuras». As histórias do primeiro grupo remetem para a infância do autor, passada em Monchique, e são as mais saborosas.
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Um aspecto notável na escrita de António Manuel Venda é a espontaneidade que resulta do emprego da voz directa, muitas vezes cumprindo a função de comentário atribuído a testemunhas da acção nem sempre identificadas. No segundo grupo de histórias, há um conto sobre a Padeira de Aljubarrota em que essa tarefa é sabiamente cometida a duas gaivotas, com um resultado bastante divertido.
António Manuel Venda foi colaborador do DN Jovem.
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S/ indic. autor, Correio da Manhã, 08.07.99
Um livro feito de coisas simples
«O Velho que Esperava por D. Sebastião», de António Manuel Venda, é uma fantástica viagem no tempo... à infância, às fábulas, às histórias de encantar, mas também ao passado dos grandes feitos da História de Portugal. Uma viagem que se inicia no título, continua no prefácio de Jorge Marques e não mais termina.
É um livro que se lê de um só fôlego, com o mesmo interesse. Uma obra que nos encanta, que nos recorda a Padeira de Aljubarrota, entre outras personagens que povoam o nosso imaginário comum; que nos desperta para outras visões das coisas.
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«O Velho que Esperava por D. Sebastião» é o quarto livro de António Manuel Venda e, por ele, apetece-nos que o autor edite já o próximo e que Jorge Marques o prefacie.

S/ indic. autor, Semanário, 28.05.99
Podia tratar-se de um livro de viagens. No tempo, bem entendido. Em «O Velho que Esperava por D. Sebastião» acontecem vidas, paisagens, sonhos e fantasias. O livro peca apenas pela brevidade - sinónimo da pressa e da juventude impaciente do escritor. (...) António Manuel Venda quis que o velho-menino sonhador fosse, afinal, um sábio leitor das estrelas, certo de que «O Desejado» há-de chegar. Sem pressas.

S/ indic. autor, 24 Horas, 06.06.99
Mais parecem histórias de meninos contadas a adultos, ou vice-versa. O livro de António Manuel Venda é um mimo oferecido ao leitor, reportado de forma simples, despretensioso mas cheio de sabor, a lembrar as narrativas sul-americanas, temperadas de cor, emoção e irrealidades.

S/ indic. autor, DNA, 10.06.99
Contos à Venda
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António Manuel Venda deu os primeiros passos no DN Jovem, com pequenas histórias inspiradas no realismo mágico de García Márquez e na prosa sem pontuação de Saramago. Eram contos curtos mas muito inventivos, nos quais o autor afinava os seus recursos estilísticos e a sua «voz», trabalhando ao máximo no sentido de uma fluidez narrativa cada vez maior. Em poucas palavras, o escritor algarvio, nascido em Monchique em 1968, mostrava-se não apenas um exímio «deus ex machina» de um mundo que tinha como centro a aldeia do Alferce e como «marionetas» uma galeria de personagens vergadas pelo destino (homens e mulheres do campo, padres, cães, aleijados, cegos e bruxas). Esse pequeno mundo foi justamente o território onde António Manuel Venda inscreveu as suas primeiras ficções publicadas em livro. (...) Mantendo uma média de um livro por ano, acaba de publicar - ainda e sempre na Pergaminho - a quarta obra, «O Velho que Esperava por D. Sebastião», uma compilação de contos. A primeira parte do volume é a que se aproxima mais do padrão narrativo a que nos habituou: histórias de crianças privadas das suas quimeras, de fantasmas e do tal homem que não desistia de esperar o «Encoberto». Nas restantes partes, o autor atreve-se a explorar outros géneros, outros locais e outros tempos, mas não consegue ser tão feliz. (...) António Manuel Venda nunca escreve mal ou sem graça, mas devia precaver-se sempre que sai do seu verdadeiro «habitat».

S/ indic. autor, Sulstício, 19.11.99
Um regresso ao passado, às histórias da carochinha, ao tempo da imaginação e do sonho. Uma leitura que se transforma em viagem e nos conduz ao maravilhoso mundo das lendas e dos contos tradicionais. Que nos leva de Monchique às pradarias imaginárias e aos quadradinhos do Oeste americano, das eiras e ribeiras às avenidas novas, da infância à juventude, do Campo Grande às Docas, em Lisboa.
Uma oportunidade única para conhecer raparigas com perucas de toalha ou descobrir que afinal a Padeira de Aljubarrota era Algarvia. Um livro doce e simples que nos lembra o menino que há em cada velho que espera por D. Sebastião e nos ensina a fórmula para acreditar no sonho. Neste saltitar entre os sonhos de criança, as armas e os barões, as aventuras e desventuras destes personagens do Sul, António Manuel Venda lança um terno desafio às velhas emoções.


Prefácio
Jorge Marques, prefácio do livro
Deve ter-me escapado algum dia, talvez num almoço com o autor, a minha confessa frustração de escritor, apesar de tanto escrever. Só podia ser essa a razão que levava o António a convidar-me para lhe escrever o prefácio deste livro. Belo gesto. Podia ser por isso, ou por um daqueles vícios das novas correntes de marketing, que aconselham a dar a palavra ao leitor, ao cliente…
Claro que tive que lhe perguntar:
- Por quê eu?
- Porque leu os meus livros («lá estava»), porque não quero ninguém das letras («era isso»), porque acho que vai resultar - disse ele.
Quem fala assim não é gago e merece resposta. Num fim-de-semana, dei por mim em frente da lareira, a horas altas e a ler estas histórias. Em resultado disso, não posso dizer mais do que o que senti, porque não sou das letras, porque não me foi pedido e a mais não sou obrigado.
«O Velho que Esperava por D. Sebastião» acordou-me nessa noite para a próxima descoberta da humanidade, que acontecerá no próximo século, ou seja, já amanhã. Porque se foi verdade que no século XX a grande descoberta do homem foi o espaço, o próximo século será marcado pela conquista do tempo.
Foi o que primeiro senti, sentido até à emoção, uma espécie de viagem no tempo. Ao tempo em que a história era feita de falsos heróis, o tempo dos amores transparentes, dos bancos da escola, dos mergulhos nas ribeiras, do chegar à grande cidade, do sentido e da falta de sentido de tudo o que se aprende na universidade, do caricato retrato das empresas na moda.
Embarquei nesta viagem no tempo e senti como se estivesse lá, no meu tempo, e tudo fosse hoje. E no calor das chamas lembrei-me de Jorge Luis Borges: «O tempo é a substância da qual sou feito./ O tempo é um rio que me leva,/ mas eu sou o rio;/ é um tigre que me despedaça,/ mas eu sou o tigre;/ é um fogo que me consome,/ mas eu sou o fogo.»
Na procura de uma explicação mais ou menos científica, lembrei-me do chamado «deslocamento reflexivo», que consiste na capacidade de sentir em profundidade um momento específico do tempo. Não se passa apenas ao nível da ideia ou da imagem do futuro ou do passado. É sentir-se lá, é sentir essa experiência, é sentir esse momento na pele. É a nossa próxima conquista, este viajar no tempo.
Em termos de posicionamento literário, e a este propósito, fala-se muito de um «boom latino-americano», cuja magia reside exactamente nesta capacidade de levar o leitor a uma espécie de regressão afectiva. É um estado de alma que nos torna receptivos às mesmas histórias orais da infância, uma espécie de magia que toca quer nas lendas, quer nas tradições, quer na vida quotidiana. Uma espécie de realismo fantástico. Tudo pode ser verdade, tudo pode ser mentira, ou simples imaginação. Como Gabriel García Márquez, referência espiritual do António e da sua solidão.
Este velho contador de histórias emocionou-me, entre a lágrima, o sorriso e a gargalhada. Fez-me bem. «O Velho que Esperava por D. Sebastião» acordou-me por isso, e também, para uma outra realidade, talvez para uma outra viagem, só que agora voltada para o futuro, para o Sul.
Este é um livro do Sul. Não do Sul de Portugal, onde o autor nasceu, ou do Sul de qualquer país. Não é apenas o lugar da «Triste Canção do Sul», do «Fado», mas do «Fatum», que os romanos incluíam na sua mitologia como sendo a vontade expressa não só de Jupiter, mas também de outros deuses, em relação ao destino dos homens, das cidades e das nações. «Fado» é a disposição e providência divina que antevê os acontecimentos humanos.
Este é um Sul do outro lado do mar, é a terra de Jorge Amado, de Gabriel García Márquez, de Laura Esquível, de Isabel Allende, de Luis Sepúlveda, de tantos outros extraordinários contadores de histórias.
Entre o fogo brando, o livro do António fez-me recordar «O Velho que Lia Romances de Amor», de Luis Sepúlveda. «Numa noite de histórias cheias de magia, deixou-me alguns pormenores do seu desconhecido mundo verde…» Era a floresta tropical, mas podia ser Monchique, ou a esperança.
O velho do António, que contava histórias de encantamentos e avisava as pessoas do regresso de D. Sebastião numa manhã de nevoeiro, tinha-lhe ensinado a fórmula de sonhar com aquela com quem haveria de casar. Bastava contar nove estrelas durante nove noites seguidas e dormir, à espera do primeiro sonho.
E o velho de Luis Sepúlveda, que lia histórias de amor?
«- Anda, lê mais alto./ - A sério? Interessa-te?/ - Digamos que sim. Uma vez fui ao cinema, em Loja, e vi um filme mexicano, de amor. Nem lhe conto, compadre. As lágrimas que me caíram./ - Então tenho que te ler desde o princípio, para saberes quem são os bons e os maus.»
Asi son esas historias: comovedoras, risibles, ensoñadoras… A diferença é que o nosso autor tem mais pressa de chegar, é mais impaciente por dentro, luta contra o vento e não contra o tempo. A idade e a proximidade do Norte a isso o obrigam.
Este é um livro que sabe às coisas simples, que vão de Monchique às pradarias imaginárias e aos quadradinhos do Oeste americano, das eiras e ribeiras às avenidas novas, da infância à juventude, do Campo Grande às docas. É tudo já ali.
«O Velho que Esperava por D. Sebastião», ou o velho que contava histórias de encantar, é afinal um menino. Por isso, este é também um livro de poesia, a poesia de um olhar azul que foi lavado nas ribeiras transparentes e secou ao sol das eiras, e que ninguém consegue embaciar a não ser de emoção.

«Até Acabar com o Diabo»

(Romance, Editora Pergaminho, 1998)

Início do livro
Dizem que há pessoas que não fazem falta nenhuma ao mundo, que costuma haver pelo menos uma pessoa dessas em cada terra. E quando não há, dizem também, logo o destino se encarrega de a fazer chegar, por uma razão qualquer, ou até sem razão nenhuma. O Diabo era uma dessas pessoas, é o que quase toda a gente pensa, e se não fosse o mau-cheiro que lhe começou a sair da boca algumas horas depois de o burro ter entrado no café do Compadre Sabiniano, se não fosse por isso, nem teria valido a pena perderem tempo a enterrá-lo.
- Exactamente, senhora Domingas!
Um dia, logo pelo começo da manhã, Francisco fez-lhe uma espera em cima de um sobreiro. E quando ele passou montado no burro saltou-lhe para as costas e espetou-lhe uma faca de matar porcos na cabeça.
- Espetei-lha muitas vezes, senhor doutor, pelo menos umas dez vezes. Fui-lhe furando a cabeça sem ligar aos gritos que faziam levantar das árvores a passarada toda. E fiquei naquilo até o burro me atirar ao chão e desaparecer pelo caminho abaixo, com o filho da puta de rojo agarrado ao rabo.
(...)


Textos de opinião sobre o livro

Helena Barbas, Expresso, 06.06.98
Diabo à solta
- Um romance a cumprir promessas literárias, onde o insólito chega ao trágico
Um pouco mais calmo - sem a exuberância alucinante dos contos de «Quando o Presidente da República Visitou Monchique por Mera Curiosidade» (1996), com mais profundidade psicológica do que em «Os Abençoados Fiéis do senhor S. Romão» (1997) - António Manuel Venda lança o seu terceiro livro: «Até Acabar com o Diabo». Aqui prova o seu crescimento como escritor, confirmando as promessas primeiras, prometendo novos caminhos. O espaço e as gentes desta sua narrativa continuam a ser os do Algarve, ainda pelos arredores de Monchique. Trata-se agora da aldeia de S. Bartolomeu das Osgas, sem «discotecas, nem bares, nem outros locais do género, nem cinema. Tirando o café do Compadre Sabiniano, que era o que era, pouco mais havia. Por isso convinha aproveitar tudo, a fuga do Corvo Espanhol, uma noite de núpcias, um marido que batesse na mulher ou até uma mulher que batesse no marido. Especialmente uma mulher que batesse no marido» (pág. 25). À míngua de distracções - para além do bordel e da Rádio Monchique - dá-se outra atenção aos pormenores da vida. Espia-se, coscuvilha-se, provoca-se, deduzem-se umas coisas e inventam-se outras. E por aqui as personagens assemelham-se às do Alferce nos comportamentos e no imaginário, desviando-se em direcção a um real mais supersticioso do que fantástico. Mais verosímil, embora igualmente divertido e intrigante, o insólito é suscitado pela crueldade nascida da ignorância - chegando ao trágico.
E começa assim: «Dizem que há pessoas que não fazem falta nenhuma ao mundo, que costuma haver pelo menos uma pessoa dessas em cada terra. O Diabo era uma dessas pessoas, é o que quase toda a gente pensa, e se não fosse pelo mau-cheiro que lhe começou a sair da boca algumas horas depois de o burro ter entrado no café do Compadre Sabiniano, se não fosse por isso, nem teria valido a pena perderem tempo a enterrá-lo» (pág. 9). Só lentamente se vão percebendo os motivos da inimizade entre o Corvo Espanhol - um louco fugido do asilo de Monchique, que na terra é conhecido por bruxo (e por não ser parvo, nem espanhol) - e o desconhecido que por essa altura chega a S. Bartolomeu: «Quando o tiraram da camioneta das oito, ainda a dormir e a ressonar bem alto, as pessoas começaram a juntar-se à volta dele para lhe verem a cara. Falavam muito, davam opiniões, ou acerca do roxo da pele, ou das borbulhas que lhe rodeavam a boca, ou então do nariz que parecia um tomate maduro. E o barulho acabou por ser tal que ele acordou, e logo no momento alguém começou a gritar.
- Só pode ser o Diabo!!» (pág. 33).
O Diabo assusta-se com o acordar repentino, com os gritos do baptismo, e esperneia vociferando premonitoriamente: «- Filhos da puta, se for preciso limpo o sebo a um!»
Um conflito tido por secundário (a ser devidamente acompanhado em reportagens de rádio e televisão) que se embrenha e interfere com a história primeira. De amor e morte, esta tem por heróis o pintor de paredes Pato Francisco e Adelaide, costureira como a mãe, vindas de Sabóia e recém-instaladas em S. Bartolomeu. Ele não sabe que foi amor à primeira vista: «Francisco ficara apaixonado desde o dia em que fora às novas costureiras e dera de caras com Adelaide. Ficara apanhado pelas pernas e pelos braços, pelo corpo todo se calhar, e o sentimento parece que foi recíproco. Por ela, para ficar junto dela, tinha aguentado os namoros à vista da mãe, tinha rasgado roupa para depois ir lá mandar arranjá-la, tinha até encomendado mais roupa do que aquela de que necessitava» (pág. 22). Nos tempos mortos, goza-se a lentidão e iras do Pato Francisco. Mais esperta, Adelaide protege-o. Volúvel, a aldeia vira-se para o Corvo Espanhol e o Diabo. Até que, de Sabóia, o passado traga a tragédia ao casamento pobre e feliz, a desgraça ao herói. É ele quem conta a sua vida - destrinçando-a das peripécias da aldeia - a uma discreta entidade que apelida respeitosamente de «senhor doutor».

Filipa Melo, Visão, 02.07.98
(...)
Para voltar de férias sabendo o que de melhor se faz na nova literatura nacional, reserve também um espaço «Até Acabar com o Diabo». É fácil surpreender-se com o universo do maravilhoso absurdo de António Manuel Venda, cuja originalidade já havia sido confirmada em «Quando o Presidente da República Visitou Monchique por Mera Curiosidade» (1996) e «Os Abençoados Fiéis do senhor S. Romão» (1997). Natural de Monchique, o autor tirou estas narrativas de uma gaveta onde as tinha encerradas desde 1989. Por sua vez, a escrita de «Até Acabar com o Diabo» data de 1994.
Dono de uma imaginação virtuosa que cruza com as memórias do Algarve da sua infância e adolescência, António Manuel Venda só escreve «quando [lhe] apetece». E recheia os seus livros com personagens fantásticas, donas de ainda mais espantosas acções. Neste caso, elas são um pobre pintor de casas chamado Francisco e alcunhado de «Pato», um Diabo que o é apenas de nome e tem a cara comida pelas abelhas que a mãe de uma rapariga por ele desonrada lhe atirou, ou o Raposo do Besteiro, disposto a contar inúmeras histórias. Pelo meio, acontecem crimes e decorre uma investigação policial, morcegos assobiam músicas de Roberto Leal e Marco Paulo. Um apurado domínio da língua portuguesa, uma ironia refinada e uma estrutura narrativa veloz arrebatam-nos da primeira à última página.
Uma boa razão para crer que a literatura portuguesa está viva e de boa saúde.

Appio Sottomayor, A Capital, 25.06.98
António Manuel Venda começou há pouco, pela simples razão de que a idade não lhe permite uma obra longa. Mas já leva no currículo um livro de contos que obteve um êxito pouco comum («Quando o Presidente da República Visitou Monchique por Mera Curiosidade») e um romance premiado («Os Abençoados Fiéis do Senhor S. Romão»). Novo romance surgiu há pouco («Até Acabar com o Diabo»), editado pela Pergaminho. Trata-se de uma narrativa que quase se lê de um fôlego - o que não significa superficialidade de tema ou de escrita. Num estilo directo e utilizando a linguagem «regional» a que já habituou o leitor, o autor revive o ambiente de remotas aldeias algarvias, mergulhando num mundo de superstições, medos e desconfianças que fizeram (fazem) parte da mentalidade portuguesa.

Antónia Santa Clara, O Independente, 17.07.98
Quando a uma imaginação prodigiosa se alia o dom de um contador de histórias o resultado é, sem dúvida, o convite a uma leitura compulsiva. È o caso deste «Até Acabar com o Diabo», último romance de António Manuel Venda, autor da colectânea de contos «Quando o Presidente da República Visitou Monchique por Mera Curiosidade», cuja primeira edição esgotou em poucos dias e lhe valeu nomeadamente o prémio «Revelação Inasset», e do também premiado romance «Os Abençoados Fiéis do senhor S. Romão», ambos da Pergaminho. Licenciado em «Organização e Gestão de Empresas», este jovem escritor algarvio promete novamente impressionar o leitor com o hibridismo característico das suas narrativas, em que o quotidiano e o surreal se fundem num imaginário povoado por personagens tão típicas da realidade algarvia, e não só, como inesperadas. Um pintor que para vingar a sua Adelaide costureira mata o Diabo com uma faca de matar porcos é apenas a promessa das páginas iniciais. Porque melhores são sem dúvida as histórias do Raposo do Besteiro e a fuga do septuagenário Corvo Espanhol do asilo de Monchique (e as peripécias da cobertura televisiva e radiofónica) que, segundo os populares de S. Bartolomeu das Osgas, atravessa o país na sua vassoura de vender bolotas, transformadas em caramelos espanhóis. E os morcegos-rouxinóis que assobiam músicas do Marco Paulo e do Roberto Leal nas ruas da Baixa de Lisboa. O humor e a ironia a destacarem-se na nova geração de autores portugueses contemporâneos.


Apresentação
Texto de apresentação de José Correia Tavares, no lançamento do livro no Forum FNAC Colombo (Lisboa), 28.05.98
Apresentar um livro, seja qual for, é – isso tenho para mim – como apresentar um amigo. E, deste meu amigo de há tão breves dias, o romance intitulado «Até acabar com o Diabo», de todos os meus amigos o mais recente, começarei por vos dizer que, logo à primeira vista, se me afigurou ser pelo menos bem intencionado, a merecer-vos, vão por mim, circunspecto respeito, alguma deferência.
A meu ver merecida, justa, essa atenção que eu vos peço para dispensarem ao romance de António Manuel Venda, «Até Acabar com o Diabo». Livro com a chancela da Pergaminho, a cuja apresentação agora procedo. E este, todos os livros, como às pessoas, mesmo aquelas que são nossas amigas de há longa data, e apresentamos aos amigos, ou, a contrária também é verdadeira, nos são apresentadas, haverá que, tomando embora como boa, nos merecendo confiança a sua apresentação, conhecê-lo, ao livro, numa relação directa, sem interposta pessoa.
Apesar de ser eu o apresentador. Que, modéstia à parte, um pouco vaidoso de mim, até nem vos tenho desiludido por aí além, em matéria de amizade, às pessoas, aos livros. Mas, mesmo assim, e desculpar-me-ão a insistência, a este romance de António Manuel Venda que vos vou apresentar tereis que ser vós a lê-lo, conhecê-lo bem, para acaso ficardes, assim o espero, tal aconteceu comigo, seus amigos. A leitura do presente romance, que me ocupou boa parte deste fim-de-semana, sugeriu-me algumas considerações.
O meu primeiro contacto com a escrita de António Manuel Venda ocorreu em 1996, quando integrei, representando a Câmara Municipal, o júri do «Prémio Literário Cidade de Almada», que lhe foi atribuído pelo seu original «Os Abençoados Fiéis do Senhor S. Romão». Cuja leitura me agradou sobremaneira, por que não dizê-lo, me surpreendeu.
Desde logo, pela palavra à solta, mas sempre vigiada, uma escrita sem retórica, o discurso de quem, pretendendo contar uma história, várias histórias, sabe como fazê-lo, conhece todos os ingredientes com que prepara, meticulosamente, a refeição literária, nada de sopa de letras, que nos vai servir.
E era uma voz original, o que vai sendo raro, se é que não o foi sempre, transmitindo uma ambiência rural, na circunstância, a da serra algarvia, não influenciada, a voz, por qualquer figurino de neo-realismo tardio, nem na maneira de contar, nem naquilo que contava.
Na sua indubitável originalidade, tinha mais a ver com algo quase imaterial que anima os contos tradicionais, anima, no sentido de lhes dar alma, ainda hoje, com os rimances e as lendas, com as histórias de proveito e exemplo, percorrendo sem dúvida um espaço de que, com outra finalidade, também se reclama a etnografia.
O autor até arriscava meter, de quando em vez, um pé, ambiciosamente, na antropologia, e, mesmo nela, terreno mais difícil, aguentava-se, não escorregava, ia caminhando seguro, bem disposto e fazendo rir.
Era um romance aquele, assim acontecendo também neste, que englobava vivências múltiplas, algumas autênticos achados, situações pícaras, sempre alicerçadas num humor culto e inteligente, nem haverá outro. Por vezes, não muitas, a acção-intriga, por comezinha, quase resvalava no anedótico, mas, numa pirueta irónica, furtava-se-lhe, passando a outra cena, interligava este relato com aquele, de tudo isto resultando um romance bem construído estilisticamente, de bom ritmo narrativo e com notória qualidade estética.
A mim, a leitura deste trabalho então inédito e sem autor visível, porque assinado ainda com um pseudónimo, deu-me um grande gozo. Enquanto leitor, grato, por isso, a António Manuel Venda. Agradecimento que também é devido ao editor, Mário Moura, pois, acreditando nele, no original de «Os Abençoados Fiéis do Senhor S. Romão», de um escritor ainda tão novo, o publicou, assim fazendo com que chegasse a alguns milhares de leitores, dado estatístico a revelar o quanto aquele livro agradou por aí.
Um romance de ambiência rural, coisa rara, cada vez mais, entre nós; a cair no goto de um público, de públicos marcadamente urbanos, acontecimento ainda mais raro será.
Já vai longa esta minha intervenção. O que não será pretexto para, comodamente, eu fugir à responsabilidade de falar, como me foi pedido, do romance «Até Acabar com o Diabo». Mas sem prejuízo de ainda tecer algumas considerações sobre ele, não muitas, nem de rigor crítico-ensaístico, tomar-se-á como bom, bem intencionado da minha parte, que tudo o que vos disse acerca do primeiro romance de António Manuel Venda também sirva para este.
Num e noutro, passando pelo seu livro de contos, «Quando o Presidente da República Visitou Monchique por Mera Curiosidade», memória colectiva e cultura popular, esta no sentido antropológico, mais do que folclórico, são as duas traves mestras do seu edifício narrativo.
Desde logo, e como pontos altos, exponenciais, no gráfico da sua escrita, a constância da originalidade de um estilo próprio, com destaque para o picaresco, mais de Quixote e/ ou Sancho Pança do que de Cervantes, mas sempre de matriz peninsular, Gil Vicente, tantos outros, de ambos os lados da fronteira.
E o permanente apelo, página a página, à boa disposição do leitor, a qualidade estética ainda mais acentuada, decorrendo embora a acção deste novo romance nas mesmas áreas temáticas do primeiro, quase no mesmo imaginário também.
A narrativa de António Manuel Venda é inconfundível e a sua qualidade cada vez mais assinalável. A confirmá-lo como um dos nomes mais em evidência, sem dúvida merecida, na moderna novelística portuguesa. E, tão originais como ele, raros autores havendo.
Efabular assim não é coisa de todos os dias e está ao alcance de bem poucos. Aquilo que parece facilidade, é, afinal, o talento da facilidade conseguida, apontada à legibilidade quase imediata. Difícil como o caraças. Que o calão na minha boca não vos escandalize, pois encontrá-lo-eis um pouco por todo este livro de António Manuel Venda. Como, afinal, também nos anteriores.
Para quem a pretenda conseguir, à facilidade, de uma forma digna, vertebrada, isto é, mantendo sempre o eixo da própria rotação nas suas diversas translações, é difícil como o caraças, repito.
Não será afinal esse o recado que António Manuel Venda nos transmite, através da citação de Naguib Mahfouz, anteposta ao romance «Até Acabar com o Diabo»? À vossa consideração, ela é do seguinte teor:
«Terás de te aclimatar às trevas, ao silêncio e à solidão – enquanto o mundo se recusar a alterar os seus caminhos perversos.»
Longe da perversidade – «como a natureza manda e a imaginação compõe» – tudo fazer para conseguir ser fácil. Até acabar com o Diabo.
Que nem é tão mau como o pintam. Sabe disso, também ele, o personagem principal deste livro, pintor de profissão. Mesmo o cabo da GNR, para quem o Diabo é um suspeito como os outros. E o Diabo, este no romance, como pode ele fugir da cruz, se até a tem como sobrenome? Avelino da Cruz, um pobre diabo, bem vistas as coisas.
De resto, o imaginário colectivo português nunca tomou o Diabo a sério, pode bem com ele. Sobram os provérbios, os ditos populares que sistematicamente o subalternizam, ou até o metem a ridículo. E leia-se Gil Vicente, o «Auto da Barca do Inferno», por aí fora.
Isso, um Diabo a sério, de meter medo, só mesmo nas mitologias do norte da Europa. Quem, por aqui, como Fausto, faria um mau negócio vendendo a alma ao Diabo? Por estas bandas, nos seus tratos com a malta, o Diabo é sempre levado.
Mas estas são outras histórias. Com as quais não vos tomarei mais tempo. Se fizerem um apelo à vossa memória, todos se lembrarão de algumas.

«Os Abençoados Fiéis do Senhor S. Romão»

(Novela, Editora Pergaminho, 1997)

Excerto do livro
(...)
O Senhor S. Romão foi encontrado na Umbria, dentro de uma sementeira de favas. É um achado tão velho que até a mulher que o fez já morreu e agora ninguém se lembra de como se chamava ou de como era a sua figura. Diz o povo que a ela Deus se encarregou de lhe arranjar um lugar bom para a alma, e isso deve ser certo, porque os sacrifícios em favor do divino têm fama de vir a receber compensações depois da morte. O Céu, como apregoa o senhor abade Simão Agostinho, é só para quem o merece, e da mulher que um dia deu com o Senhor S. Romão pode-se dizer à confiança que está nessa conta.
Sempre tem sido muito falado o que ela passou com o santo, depois de o ter trazido aqui para a igreja do Alferce e de o ter colocado no altar maior. Ele desapareceu em menos de nada, e isso foi uma coisa que deixou toda a gente de boca aberta e sem saber o que pensar. Mas passado um tempo a mulher voltou a encontrá-lo nas ditas favas e tudo voltou ao princípio. De novo o levou para a igreja, de novo ele fugiu, e assim foi de novo em novo até que um belo dia assilhou. Da igreja não mais saíu, descansou a mulher, comeram-se as favas e o povo orou.
(...)


Textos de opinião sobre o livro

Victor Mendanha, Correio da Manhã, 12.03.97
«Os Abençoados Fiéis do Senhor S. Romão», cujo original recebeu o prémio «Cidade de Almada», em 1996, manifestam a exuberância da imaginação do autor, que o leva a passear, pela trela de uma narrativa fascinante e ao longo das 132 páginas da obra, personagens incríveis como a bruxa da Corte da Pomba, o cão falador ou o abade Simão Agostinho.
(...)

Helena Barbas, Expresso, 22.03.97
Um romance às avessas
- Histórias bizarras ao encontro de uma tradição quase perdida
António Manuel Venda estreou-se - e assombrou-nos - com uma colectânea de contos insólitos, onde se misturava o regionalismo com o surrealismo, o realismo com o fantástico, a um ritmo alucinante e numa linguagem primorosamente trabalhada: «Quando o Presidente da República Visitou Monchique por Mera Curiosidade».
Regressa com um novo livro anunciado como romance, que se poderia chamar de novela, mas que se aproxima mais de uma estrutura de uma «never ending story» - o que nos deixa um pouco perplexos. «Os Abençoados Fiéis do Senhor S. Romão» é constituído por capítulos e secções, vários episódios - contos? - onde o narrador nos fala das aventuras e desventuras vividas pelas várias personagens de uma mesma aldeia no início do século XX. Não há mais continuidade de umas para as outras do que aquela a que nos habituou no seu livro anterior. Daqui a estranheza de baptizar este texto como romance - curiosamente, recorda a opção feita pelo cinema («Vizinhos») na adaptação dos contos de («A catedral») Carver: pôr as personagens a residirem todas num mesmo espaço e, por intermédio dessa vizinhança e dos encontros por ela suscitados, criar as ligações das histórias entre si. Mas não se encontra uma intriga unificadora - nem mesmo através da suposta devoção ao santo da terra que dá o título ao livro.
Nada disto é impeditivo em termos de prazer de leitura. Reencontramos a mesma mestria de linguagem, o mesmo ritmo, a mistura de registos e intenções, embora mais comedidas. Perdeu-se muita da crueldade. Exacerbou-se, no entanto, uma ironia mais feroz espadeirada em particular nos jogos de palavras com o tempo e o envolvimento do leitor: «Em meia hora se está na praça, isto no burro de Libório Arlindo, porque através da escrita é apenas uma questão de linhas. Aqui está o sapateiro a apregoar os seus artigos bem fresquinhos, ele chegou agora mesmo.» (pág. 83).
As cenas decorrem no Alferce. Começam com o namoro entre Severino castanho e Catarina e acabam com estes casados e à espera do primeiro filho. Ela fora conquistada com a ajuda das mezinhas da portentosa bruxa da Corte da Pomba, e são abençoados pela abade Simão Agostinho. Com eles se cruzam moleiros, sapateiros, o regedor, etc. - personagens quase tiradas de Júlio Dinis, exiladas nos confins dos Algarves num mundo às avessas. Quem mais contribui para que tudo ande de pantanas é, inevitavelmente, a bruxa, que, volta não volta, se engana - tanto põe homens a mugir quanto cães a falar: «Há três dias que a mulher não dorme, sempre a pensar numa solução para o caso. São tantas as poções que ela vai experimentando que já gritam algumas árvores, já choram muitas pedras e até já ri a Lua noite sim noite não. E também tem chovido grandes aguaceiros de sangue e vinho, que são difíceis de distinguir pois a cor é praticamente igual. Os bêbados, no entanto, já descobriram o segredo e sabem que de dia é sangue e de noite é vinho.» (pág. 77).
Com «Breviário das Más Inclinações», de José Riço Direitinho, e «A Encomendação das Almas», de João Aguiar, este livro desenha um triângulo que marca o rejuvenescimento de uma linha de tradição da nossa literatura que parecia esgotada.

Carla Maia de Almeida, Notícias Magazine, 27.04.97
Valha-nos Deus!
No Alferce, quando um lagarto passa incólume pelas ruas, sem que ninguém lhe acerte com uma pedra ou os gatos e os cães o tomem por aperitivo, isso é assunto de conversa na taberna. O Alferce é uma terra de gente estranha, com nomes mais estranhos ainda (Ercínio Estrafunca, Coxo Amêjongra, Rosendo Cenoura, Fulgêncio Caroço, etc., etc.), e onde os acontecimentos quotidianos não o são menos. Que pensar, por exemplo, de uma vaca que perde o mugir, reaparecendo no felizardo que ganhou o amor de Catarina? «É vê-los todas as noites ao luar, ela falando, ele mugindo, mas sempre juntos.» Coisas da bruxa da Corte da Pomba? O mais provável. Explicam-se estes e outros assombros no último livro de António Manuel Venda, «Os Abençoados Fiéis do Senhor S. Romão». Quem gostou dos dezasseis contos de «Quando o Presidente da República Visitou Monchique por Mera Curiosidade» (e um título destes não é todos os dias...), surpreendendo-se com a prosa invulgarmente trabalhada deste novo escritor, sentir-se-á grato por poder prolongar o feitiço.

João Vila, Jornal de Monchique, 21.03.97
Mais um livro à Venda
(...)
O enredo passa-se no Alferce da segunda década do Século XX e dos factos ocorridos na época apenas colhe umas ténues referências.
Segundo o autor, as histórias fantásticas que se sucedem ao longo da narrativa e que têm como personagens centrais, entre outras, a bruxa da Corte da Pomba e um santo, o Senhor S. Romão, baseiam-se em lendas e acontecimentos contados pela sua avó Maria Teresa. Outras personagens que servem de fio condutor, Severino Castanho e Catarina, são mesmo inspirados em familiares seus.
Com um estilo irónico e uma escrita nada pretensiosa, António Manuel Venda parece estar a cativar um público jovem e simultaneamente a reacender as velhas histórias de lareira.

S/ indic. autor, Gentleman, 30.06.97
De leitura obrigatória
O fantástico e o maravilhoso dominam a temática do segundo livro deste jovem autor, que lhe valeu o prémio «Cidade de Almada» em 1996. O ambiente das serranias algarvias de Monchique, da vivência das gentes de aldeias vizinhas, ditada pelos ciclos da produção agrícola, num passado recente. Um monte que separa o quotidiano dos habitantes do Alferce e da Umbria e o namoro de dois jovens, Severino Castanho e Catarina, ambos órfãos, que têm no abade Simão Agostinho um cúmplice do seu amor. As vidas dos dois apaixonados cruzam-se no baile nocturno da festa do Senhor S. Romão, santo venerado pela cura de males de raiva. Mas o estranho acidente de caça em que morreram o pai e o irmão de Catarina criou o medo, no seio das gentes da terra, de que a bruxa da Corte da Pomba traçara trágicos destinos.


Prémio Literário Cidade de Almada

Intervenção de Manuel Frias Martins, como porta-voz do júri, na cerimónia de entrega do «Prémio Literário Cidade de Almada 1996», 27.07.96
Como em outras coisas da vida, também na literatura se pode dizer que há gostos para tudo. Pode-se dizer, mas uma tal afirmação revela quase sempre uma de duas coisas: ou uma grande má fé quanto a padrões qualitativos essenciais do comportamento humano, ou uma mistificação deliberada dos critérios de discernimento do belo.
Com esta introdução pretendo dizer o seguinte. O que estamos aqui a celebrar é a «escolha» de um romance inédito entre os trinta e oito romances a concurso. Uma «escolha» levada a cabo por um júri composto por três pessoas com personalidades distintas, opções artísticas diferenciadas e pertencentes a gerações razoavelmente diferentes. Ou seja, o que estamos aqui a celebrar é um critério de escolha assente exclusivamente num denominador comum: a qualidade estética de uma obra intitulada «Os Abençoados Fiéis do Senhor S. Romão», que veio a revelar-se ser da autoria de António Manuel Venda.
Enquanto crítico literário e propfessor de literatura, acredito que os envolvimentos mais imediatos que mantemos com um texto derivam do modo como o nosso imaginário de leitores se cruza com o imaginário desse mesmo texto. Ora acontece que esta obra não prendeu de imediato a minha atenção de leitor. Por uma razão muito simples. É que o meu imaginário tipicamente urbano não se envolveu de imediato com o imaginário tipicamente rural por que esta obra configura as suas áreas temáticas. Uma leitura menos impressionista, isto é, uma leitura mais cuidada ou verdadeiramente crítica, acabou por me revelar as inegáveis qualidades narrativas, de efabulação e de construção estilística de «Os Abençoados Fiéis do Senhor S. Romão». O prémio foi-lhe justamente atribuído, mas deste meu envolvimento contraditório com a obra ficou a prova provada de que a crítica literária, se ficar pela superficialidade da leitura impressionista, está condenada a unicamente exibir injustiças. Infelizmente, este é o panorama que hoje se encontra com mais frequência nos jornais portugueses que ainda dedicam algum espaço à divulgação de obras literárias.
«Os Abençoados Fiéis do Senhor S. Romão» é uma obra que narra, com muito afecto e não pouca ironia, alguns daqueles episódios do dia-a-dia de uma comunidade rural bem no interior do Algarve. Mas os nós com que se atam comportamentos, crenças e valores podiam muito bem localizar essa comunidade em qualquer sítio de um Portugal marcado pelas mesmas ideossincrasias rurais. O que aqui nos é dado é um conjunto de quadros, ou de retratos em movimento, do que pode ser a identidade de um povo, e muito particularmente dos rostos dos seus actores, dos homens e mulheres que no seu existir colectivo, nas suas decisões, escolhas e preferências socialmente construídas, nos mostram as nossas mais fundas pulsões nacionais e as mais sólidas residências intersubjectivas do nosso modo de estar no mundo como portugueses. E tudo isto nos é dado num estilo seco, contido, sem reverberações retóricas e com um ritmo narativo exemplar. Creio que vale a pena escutar um curto excerto que se encontra no início desta obra:
«O Senhor S. Romão foi encontrado na Umbria, dentro de uma sementeira de favas. É um achado tão velho que até a mulher que o fez já morreu e agora ninguém se lembra de como se chamava ou de como era a sua figura. Diz o povo que a ela Deus se encarregou de lhe arranjar um lugar bom para a alma, e isso deve ser certo, porque os sacrifícios em favor do divino têm fama de vir a receber compensações depois da morte. O Céu, como apregoa o senhor abade Simão Agostinho, é só para quem o merece, e da mulher que um dia deu com o Senhor S. Romão pode-se dizer à confiança que está nessa conta.
Sempre tem sido muito falado o que ela passou com o santo, depois de o ter trazido aqui para a igreja do Alferce e de o ter colocado no altar maior. Ele desapareceu em menos de nada, e isso foi uma coisa que deixou toda a gente de boca aberta e sem saber o que pensar. Mas passado um tempo a mulher voltou a encontrá-lo nas ditas favas e tudo voltou ao princípio. De novo o levou para a igreja, de novo ele fugiu, e assim foi de novo em novo até que um belo dia assilhou. Da igreja não mais saíu, descansou a mulher, comeram-se as favas e o povo orou.»
Se me é permitido traçar uma conclusão generalizante, arrisco dizer que «Os Abençoados Fiéis do Senhor S. Romão» se inscreve numa linha de reconfiguração da literatura portuguesa actual que decorre de uma consciência da arte assente em dois vectores interligados. Por um lado, na recusa de barroquismos palavrosos. Por outro lado, na valorização da linguagem sobretudo por razões de legibilidade e não de pretensas rupturas ou experimentações.
Estou convencido de que os melhores escritores não procuram a literatura mas, antes, são por esta procurados. Quero dizer com isso que nos nossos melhores escritores a literatura acontece tão naturalmente como se respira. Depois é a cultura que faz o resto. Mas este resto é decisivo. E é decisivo exactamente porque é por ele que um escritor se define como leitor de outros escritores e, nesse processo, se apresenta como fazedor de um objecto estético cuja fruição deriva exactamente da ressonância que nele passa a ter a própria cultura da humanidade. Uma obra literária é sempre, por isso, uma consequência da memória, e esta, por sua vez, é tanto mais rica quanto maior for nela a contaminação da cultura. «Os Abençoados Fiéis do Senhor S. Romão» é uma obra cujo mérito artístico se afirma sem contestação exactamente porque o seu autor soube colher na cultura os dados por que a literatura se prolonga como difícil e aturado trabalho estético depois de ter «acontecido» naturalmente ao escritor.Fiquei a saber que este é um romance de um homem ainda jovem, com uma actividade profissional aparentemente pouco compatível com o exercício da literatura. Quanto à juventude do autor só tenho a dizer o seguinte: ainda bem, pois é sinal de que se houver convicção artística por parte de António Manuel Venda, então estamos hoje a celebrar também o aparecimento de um escritor de talento. Um escritor cuja obra se não afirmou por compdrios, amizades ou favores jornalísticos, mas pelo reconhecimento insuspeito do seu próprio mérito. Quanto à incompatibilidade profissional, só tenho a dizer aquilo que afirmei atrás: a literatura não se procura, acontece.

«Quando o Presidente da República Visitou Monchique por Mera Curiosidade»

(Contos, Editora Pergaminho, 1996)

Início do conto que dá o título ao livro
Até que a morte o levasse, Pedro Aquilino nunca haveria de esquecer a noite em que o macaco clunâmbulo lhe serviu o licor de amoras silvestres. Por esses tempos, Monchique parecia caminhar para a perdição, depois de tudo o que acontecera a seguir ao aparecimento das rameiras francesas do negro Jean Pierre. Haviam chegado com a companhia petrolífera, atraídas pelo dinheiro que na certa começaria a abundar na região. E foram elas, mais do que a própria companhia, que em menos de nada fizeram a vila acordar do longo sono de indiferença em que caíra muito tempo antes. Tanto que o presidente da câmara, quando se deu conta do estado das coisas, maldisse a hora em que decidira autorizar a exploração de petróleo no largo da feira a troco de um cinema, dois hotéis e um estádio de futebol.
- Valha-nos Glória Garcia! - gritou ele nos paços do concelho.
E depois fechou-se no gabinete e nunca mais ninguém o viu.
(...)


Textos de opinião sobre o livro

Helena Barbas, Expresso, 11.01.97
O vício de contar histórias
- Um jovem autor estreia-se com um invulgar - e excelente - livros de contos
São caso raro, mas às vezes lá aparecem daquelas pessoas que gostam de contar histórias e sabem mesmo contá-las. Desbobinam-nas uma atrás das outras a um ritmo alucinante, nunca se repetindo e surpreendendo sempre com situações cada vez mais inesperadas, absurdas, hilariantes. António Manuel Venda tem esse dom, e a ele associa um profundo conhecimento da língua portuguesa, um cuidado extremo no seu uso. Deixa-nos expectantes, desejosos de ler a história seguinte, inquietos porque a última acabou. A ânsia de descobrir o que irá acontecer na próxima, mistura-se à pena de ter passado mais uma página a encaminhar-nos para o fim do livro. São os mais apregoados que vistos malefícios da literatura, que assim até corre o risco de criar habituação, de se transformar em vício. O leitor regressa ao estado infantil de ouvinte maravilhado, ou entra em adulta empatia com o sultão de Xerazade - pode também entender qual não terá sido a força de tão manhosa narradora.
Das dezasseis histórias de António Manuel Venda, duas passam-se em Lisboa. À excepção da última, de ficção científica e com viagens interplanetárias, as restantes decorrem pelos Algarves, nas cercanias de Monchique e numa época que tem todos os defeitos da presente. O primeiro conto, «A Bruxa do Bairro Alto de S. Roque», reporta-se a 1706, e trata de um caso fantástico de um auto-de-fé a ter lugar no Rossio: «O século ainda ia novo mas a vida, que às idades não parecia ligar muito, já andava outra vez agitada por Lisboa. Ele era milagres de Santo António dia sim dia não, ele era as pessoas a falarem do anjo que alguém tinha avistado no alto da torre da igreja de Nossa Senhora da Graça, ele era ainda outras criaturas, talvez mandadas por Deus (...) E o bispo inquisidor, enquanto tão grandes maravilhas eram relatadas, lá se ia entretendo a mandar queimar hereges e judeus, uns por coisas vistas, outros porque, bem vistas as coisas, não haveria no reino deles necessidade.» (p.13) Aqui vai brincando com a linguagem da época, para logo mudar de estilo nos contos seguintes, onde adopta um registo eminentemente popular, embora rico de vocabulário, tão duro e cru como as personagens que nos vai apresentando. São estas gente do povo, tendo alcunha por nome, com necessidades e emoções primárias, por tal vivendo com mais intensidade os dramas da vida e da morte. Insinuam-se Aquilino e Torga, Rodrigues Miguéis ou o mais recente José Riço Direitinho. Porém, à temática e circunstâncias regionalistas vai adicionar-se o mitológico e o fantástico, com animais que falam, monstros que se humanizam, plantas que matam e outras metamorfoses: «As Nereidas chegaram no dia seguinte, depois de uma longa e difícil jornada à boleia. E avisaram que a partir daí chamar-se-iam Oréades, já que passavam a ser ninfas de montanha. Foram morar para a casa de Felisberto Silvestre, que com elas tinha afinidades divinas. Um barco grego havia-as trazido até à Praia da Rocha, e esse tornara-se o seu poiso ao longo dos séculos. (...) Felisberto Silvestre Poseidon era primo de todas em grau infinito...» (p.30) - uma lógica narrativa que acaba por invocar os «Contos do Gin Tonic» de Mário-Henrique Leiria. Silvestre é «O Homem dos Tremores de Terra» que tornam colossalmente fértil a terra de Alferce... Sequência a sequência, as personagens secundárias vão-se transformando em principais, expulsando a sua antecessora, até que o círculo se fecha num regresso à primeira. E também os títulos cumprem uma particular função narrativa, chegando num dos casos a dar a chave da história, premeditadamente escamoteada no seu interior.
(...)

Victor Mendanha, Correio da Manhã, 28.11.96
Um caso sério na nova literatura
(...)
Descobri duas horas de deliciosa leitura e um caso sério na nova literatura portuguesa, chamado António Manuel Venda, que usa uma forma de se expressar, na escrita, de tal maneira pessoal e intransmissível que seria mais fácil falsificar um quadro de Salvador Dali do que assinar um livro seu com outro nome.
O estilo deste escritor, capaz de virar a página de uma época, caso não lhe falte o fôlego para outros cometimentos de igual qualidade, talvez se defina - já que todos gostamos de definições - numa receita composta por 30 por cento de surrealismo, 40 por cento de populismo e 30 por cento de puro génio, com poder descritivo na quantidade que baste.
(...)

Filipa Melo, Visão, 12.12.96
Surpreendente, esta estreia. António Manuel Venda (...) concebeu «Quando o Presidente da República Visitou Monchique por Mera Curiosidade» como um bestiário. A primeira edição, de mil exemplares, esgotou em poucos dias. O livro mereceu os prémios «Literatura na Universidade», do Instituto Abel Salazar, e «Revelação Inasset», do Centro Nacional de Cultura. Outra coisa não seria de esperar destes pequenos contos de bruxas violadoras, Manuéis cornudos, Oréades desleixadas, costureirinhas que tiram as medidas aos homens e não só ou macacos clunâmbulos que servem licor de amoras silvestres. Num estilo delicioso, Venda proporciona três horas de sequiosa leitura. De espantar e pedir mais.

José Gomes Bandeira, Jornal de Notícias, 03.01.97
Contos, bruxas e... prémios
«Até que a morte o levasse, Pedro Aquilino nunca haveria de esquecer a noite em que o macaco clunâmbulo lhe serviu o licor de amoras silvestres. Por esses tempos, Monchique parecia caminhar para a perdição, depois de tudo o que tinha acontecido a seguir ao aparecimento das rameiras francesas do negro Jean Pierre.»
É um pedaço de um dos contos deste livro de António Manuel Venda, de Monchique, uma das terras algarvias que aparecem nas suas histórias de bruxas, bruxedos, bichos estranhos e mulheres infiéis, que fazem tema para serões e tabernas lá no «extremo sul». António Manuel Venda tem um estilo ágil e imaginação - os seus contos prendem pelo ambiente insólito e pelo imaginário sedutor, o que não deixa de merecer relevo quando se trata de um autor muito jovem (nasceu em 1968). É já detentor de várias distinções: prémios «Revelação Inasset» (exactamente para este «Quando o Presidente da República Visitou Monchique por Mera Curiosidade»), «Literatura na Universidade», «Literatura e Desenvolvimento» e «Cidade de Almada».

Carla Maia de Almeida, Notícias Magazine, 19.01.97
O povo e o presidente da junta
«Muitos disseram que o homem já devia andar pelos dez metros, mas também houve os que chegaram a quinze e dezasseis e os que se ficaram pelos sete ou oito. E só quando alguém notou que ele tinha os cabelos chamuscados e que os fios de alta tensão que passavam junto ao portão principal estavam a arder é que as dúvidas ficaram esclarecidas.» Dezasseis contos de trato surreal e grotesca moralidade marcam a estreia de um jovem escritor de Monchique, António Manuel Venda, que com este livro ganhou o prémio «Revelação Inasset», do Centro Nacional de Cultura. Novas e velhas superstições, agoiros e bruxarias, mulheres insolentes e gente de má catadura, manias do bicho-homem e bichos com a mania de que são homens estão entre estas fantasias de inspiração regionalista. Um Algarve desconhecido espera por si.

Manuel Frias Martins, Vértice, 01.07.97
Destaque muito particular merece «Quando o Presidente da República Visitou Monchique por Mera Curiosidade», de António Manuel Venda. Recorrendo ao imaginário rural e/ ou ao maravilhoso popular, este autor constrói histórias onde o humor e a violência se misturam enquanto representações da vida, tantas vezes cruel e brutal, de um Portugal interior. Localizando as suas histórias num Algarve serrano, António Manuel Venda protagoniza bem o que me parece constituir o modo de estar da geração que nesta altura ainda não atingiu os trinta anos de idade: pragmatismo das ideias, objectividade dos discursos, ironia das atitudes. A frase curta e objectiva, aliada a uma retórica frugal, sustenta um estilo de escrita seco, brusco e directo que reflecte exemplarmente aquele modo de estar.
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Appio Sottomayor, A Capital, 05.12.96
Um Algarve a fazer jus ao seu passado de lendas e encantamentos está bem patente no livro de contos agora lançado pela Pergaminho e da autoria de António Manuel Venda. Com o curioso título de «Quando o Presidente da República Visitou Monchique por Mera Curiosidade», a obra revela um autor jovem mas já detentor de uma invulgar maturidade de escrita, capaz de manusear a ironia com a mestria de um veterano. As histórias estranhas, em que se entrelaçam as infidelidades conjugais com os animais imaginários que tomam parte na vida activa das personagens, revelam, por um lado, um conhecimento de serões e tascas algarvias e, por outro, uma faceta renovada na literatura portuguesa.

Carla Maia de Almeida, Notícias Magazine, 27.04.97
«Quando o Presidente da República Visitou Monchique por mera Curiosidade» - Um título destes não é todos os dias...